Conto: A Zona Selvagem - Uma Aventura no Natal

 

17:00 horas de 23 de Dezembro de 2549.

Colónia planetária Terrestre

Planeta Andória do sector Sigma

 

    Elia estacionou o seu veículo de 5 ocupantes apressadamente num dos pouco lugares disponíveis. Assoprou por ter finalmente chegado e precipitou-se para fora do veículo. Ainda não queria acreditar que lhe tivessem atribuído aquela missão à última da hora. Precisava de roupas para o seu espectáculo de Natal e não tinham sido fornecidas. Com a confusão da antevéspera de Natal, tinha de as vir buscar ela mesmo.

    Ajeitou o seu comprido cabelo negro ondulado e avançou nos seus saltos altos apressadamente em direcção ao edifício em frente. Embora os seus quase trinta anos lhe permitissem maior velocidade, a saia travada não ajudava nada, já para não falar que isso seria um atentado à elegância.

    – Esmola de Natal – avançou um miúdo de 10 anos a pedir de mão estendida.

    – Já dei! – ripostou peremptoriamente com uma expressão firme.

    – Mas é Natal! – insistiu o rapaz, que não queria acreditar no descaramento da desculpa.

    Ela prosseguiu sem lhe dar mais atenção. Estava a meio caminho, quando estancou subitamente com uma exclamação de raiva, sem ligar a quem a observava.

    – Raios! Esqueci a nota de encomenda! – retorquiu com um gesto de exasperação.

    Rodou sobre os calcanhares e voltou para o veículo a dizer mal da sua vida. Abriu a porta detrás e debruçou-se sobre o banco à procura da maldita nota de encomenda. Como não a encontrava, debruçou-se e viu-a debaixo do banco da frente. Deitada no banco detrás, estendeu a mão delicada, com as unhas impecavelmente pintadas, e agarrou triunfalmente o pequeno objecto metálico. Nisto, a porta da frente abriu-se, e entrou alguém de rompante, que introduziu um cartão chave-mestra, na ranhura de autenticação do veículo e carregou no botão de ignição.

    Elia nem queria acreditar no que lhe estava a acontecer. Preparava-se para gritar, quando o veículo arrancou e ela caiu do banco. A porta fechou-se e o ladrão acelerou por uma ruela abaixo em fuga. Foi nessa altura que Elia ficou branca de susto. Ela estava nos limites civilizados da cidade e não tinha dúvidas que estavam a entrar na zona selvagem da cidade, onde a sobrevivência de uma pessoa como ela, se media em minutos.

    O rapaz assistiu a tudo e fazia um ar sério de sobrancelhas cerradas. A expressão de quem reconhecia a gravidade da situação, apesar da sua tenra idade, por já ter passado por muito e ter sido obrigado a amadurecer antes do tempo.

    – Se tivesse parado para dar a esmola de Natal, nada disto teria acontecido – murmurou para si mesmo.

    Edu ajeitou o seu boné, que escondia os seus cabelos curtos e encolheu os ombros com uma expressão de resignação. Não havia nada que pudesse fazer. Enfiou as mãos nos bolsos e lançou um olhar rápido para trás, com os seus olhos castanhos. Não queria estar ali quando a polícia começasse a fazer perguntas. Lançou-se ao caminho pela mesma rua, por onde o veículo tinha desaparecido.

    Não estava a nevar. A brisa ligeira era gelada. Ele escondia as mãos nos bolsos para as proteger, mas faltava-lhe um cachecol. A gola levantada não era proteção suficiente. O blusão também não era bastante quente para fazer face ao rigor do clima que se avizinhava. Edu afastou-se com um ar desalentado. O dia não tinha sido produtivo. As esmolas eram poucas e nem a época natalícia fazia as pessoas dar um pouco mais.

    – Mas que raio! – murmurou para si mesmo. – Nem no Natal? – insurgiu-se indignado.

    O seu Natal ia ser um dia tão mau, como os restantes, pensou com os olhos tristes postos no chão. Ia ter uma refeição tão má como nos outros dias.

    Elia via pela janela o veículo a deslocar-se. Não tinha dúvidas. Estava na cidade selvagem. Aqueles casebres horríveis não deixavam margem para dúvidas. Hesitava entre ficar no veículo, ou tentar a sua sorte, lançando-se para fora em andamento. Não sabia qual delas era a pior. Permanecer era penetrar cada vez mais em território hostil e ficar à mercê do ladrão. Saltar era magoar-se ou ferir-se na certa, cortando qualquer possibilidade de fuga. Olhou para o belo fato azul de saia travada, que terminava num esplendoroso sapato de salto alto. Como tudo isso lhe parecia agora inadequado. Como ia conseguir saltar do veículo com os saltos altos?

 

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